terça-feira, 24 de novembro de 2009

SOMOS TODOS MAUS?


SOMOS TODOS MAUS?

“O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons”.
Martin Luther King Jr.

Eu sei que não deveria mais ficar indignado com as notícias. Porque toda vez que abro a revista ou o jornal, ou procuro um site de informações, é a mesma coisa: não posso esperar boas notícias, pois só falam em tragédia, acontecimentos espúrios, negociações sigilosas, transações nefastas.
Eu tinha certeza que iria encontrar alguma coisa assim nesta última edição da Carta Capital. Bingo! Lá estava, com destaque, a senadora Kátia Abreu, engrossando o coro dos parlamentares que vendem a alma ao diabo e empurra o povo ao calabouço.
Mas eu ainda me indigno. Só que minha indignação me corrói porque eu não posso gritar, porque me sinto impotente, porque estou com as minhas atadas, frustrado, entristecido, alquebrado com a vilania desses “poderosos” esbanjando mal-caratismo e se aproveitando do cargo que ocupa para se apropriar dos bens do povo, como fizeram Cabral e seus marinheiros, que não queriam o nosso bem, mas os nossos bens. Ainda continuam querendo nossos bens!
E me pergunto, descontente: será que somos todos maus? Pergunto isso porque penso em Martin Luther King Jr., que disse ser esta a real preocupação. “Não é a violência, não é o banditismo, não é a roubalheira, não é a corrupção, é o silencio dos bons que preocupa”.
Somos todos maus neste país? Será que a realidade por aqui é que todo mundo, independente da roupa que vista, das idéias que adote e do ambiente em que trabalhe, é corrupto? Ou é só míope e finge que isso não afeta suas vidas? Não é possível que vamos ser lesados para sempre por políticos e não-políticos que nos reconhecem como imbecis e estão “se lixando para a opinião alheia”.
Gritar para quem? Fazer o quê? Votar no melhor? Ora, onde está esse cidadão/cidadã? Onde está esse salvador? Onde está essa alma que não se vendeu?
A gente comum não tem para quem gritar. Está de mãos atadas, não pode fazer nada. Pois se nem com a imprensa cobrando, informando, martelando, essa gente muda, imagina com uma simples reação de indignação de um comum, que é contado apenas como um título de eleitor!
Eu, na minha reação inicial, tive vontade de jogar a revista ao lixo ou ao fogo porque aquela realidade não é a que eu quero! Mas depois li a entrevista do vice-presidente José de Alencar e percebi uma lucidez que não é comum neste país, brilhando no final desse túnel, apontando para o caminho da Justiça. E só por isso mantive as esperanças, porque ainda há pessoas boas, sim, neste imenso país de gente levando e/ou tentando levar vantagem em tudo.

leia reportagem: Revista Carta Capital, Golpe contra camponeses

20/11/2009, Edição 573.

Leandro Fortes, de Campos Lindos (TO)

sábado, 7 de novembro de 2009

LUZIÂNIA - A HISTÓRIA DE SEU PROGRESSO


Parece inacreditável que esta cidade de 263 anos comece a caminhar para o futuro somente agora...
Como foi que esta velha senhora atravessou os anos, dois séculos, e chegou ao que é hoje, ainda uma "senhorinha" dando seus passos timidamente?
Mas aqui estamos, parados sobre esse chão, olhando para ver até onde podemos ir. O certo é que já demos passos para um futuro tão promissor que não há mais como retroceder para aquele passado obscuro.
Estamos crescendo e nossa vista alcança e vislumbra tudo aquilo que podemos ser, não a velha "senhorinha" que baixa a cabeça para tudo, mas a CIDADE dos sonhos de muitos homens e mulheres e que chegou ao futuro com seu pé fincado no progresso. É isto o que esperamos: crescer e progredir com responsabilidade social, respeitando a natureza e sem, jamais, esquecer o passado:

LUZIÂNIA – A HISTÓRIA DE SEU PROGRESO

Mineração


O bandeirante aqui veio
Rompendo estrada e sertão
Seu sonho escavou a pá –
O ouro que dá o chão –
A mula trouxe ao garimpo
O homem de outro torrão
Em seu alforje um desejo –
Riqueza em mineração

Agricultura

O ouro foi acabando
O touro virou cultura
O café a terra engrandeceu
A força da agricultura
E o trabalho duro de mãos
Refletem o esforço grande
Em acabar com a fome –
A sua maior intenção.

Pecuária

A glória áurea do passado
Nos leva para o futuro
O trabalho de nossa gente –
O ouro, a terra, a pecuária –
O sonho humano acalentado
De enaltecer o porvir
Criando, gerando riqueza
Sem jamais esquecer o passado.

Indústria

O progresso chegou no galope
Em “lombo” de caminhão
As engrenagens da indústria
À transformação da matéria –
Juntaram forças nesta cidade
Assim Luziânia cresceu –
Às boas graças do Divino –
À força que o povo deu.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

SOBRE MIM E O RESTO DO MUNDO


SOBRE MIM E O RESTO DO MUNDO

Pra começo de conversa,
Sou Anarquista!


Há um absurdo de notícias sobre mim
Que eu não entendo;
De como meu corpo reage
(ao frio, ao calor ou ao amor)
E porque as mutilações que eu sofro
(no cabeleireiro, ou na manicura ou quando tomo meu banho)
Não excluem minha vida;
Nem porque Deus fez de mim
Um caro com intenções vagabundas,
Com uma fé abalada
E um coração inexpugnável.

Há um clarão sobre minha cabeça
E dentro dela um mundo inimaginável de entretenimento,
Diversão, loucura e paixão,
E as rimas do Cordel de Fogo
Encantando minhas memórias e
Arrepiando meus pelos;
E eu me pergunto qual análise
Deus faz de minha sensatez ou da desordem
Do meu coração.

Mas qual diferença há
Entre mim e o resto do mundo
E quantos caminhos precisarei percorrer
Para chegar até os pés do Senhor,
Não sei nem desejo saber,
Mas a virtude de Cristo
Eu queria para minha vida;
Pois naquelas mãos estendidas
E naquele peito divino
Corria o suor e batia o sino da bondade.

As minhas intenções vagabundas não me tornam mau, nem bom,
Nem grande, nem pequeno,
Sou apenas homem que desconhece as inclinações
Do próprio coração
E não sabe quanto tempo ainda resta
Até a humanidade alcançar a perfeição.
Mas eu gosto de ser imperfeito,
Pois dos doces e azedos da minha imperfeição
Eu sei retirar o sabor exato da vida.

É nisto que eu levo vantagem,
Pois as pessoas que eu olho
E com as quais cruzo pelas ruas
Reconhecem, apenas, as mazelas das obrigações.
Ser eu um vagabundo me difere, me excita e me faz
Correr só por correr, ou ler só por ler,
Para tirar disto o prazer que nisto houver.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

MINHA CIDADE


MINHA CIDADE


Luziânia – minha cidade
Aqui nasci e nas ruas empoeiradas construí meu destino
Com o cimento e a cal trazidos nas andanças de meu pai
Sou o mesmo e aqui continuo
Pela manifestação de amor às mesmas ruas empoeiras
E às árvores recurvadas
Às chuvadas tempestuosas
E ao sossegado regresso do boiadeiro

Já vai longe aquele tempo em que por estas ruas empoeiras
Passavam as boiadas e meninos brincavam despreocupados
Hoje vem boi em lombos de caminhões
E os meninos se fecham em condomínios um tanto amedrontados
Agora nas fazendas plantam a soja o feijão e o milho
E Luziânia exporta tanta riqueza
Que não caberia na imaginação de um antigo

Crescidos estamos, eu e a cidade
E a cidade é ainda maior que o espetáculo do por-do-sol
Pois de minha janela eu ainda o vislumbro com o cair da noite
Mas não consigo ver os horizontes da cidade
Nem entender a extensão da rua por onde andavam os meus pais
E por onde andaram meus avós e os avós dos meus amigos antes de nós

O que sobrou daquela meninice escondemos em peitos envelhecidos
E o que sobrou daquela cidade jaz um pouco no centro
E o resto numa periferia que nem tem face
Mas para além dos campos o que há é o progresso
O asfalto cobrindo o chão
E altos edifícios cicatrizando o solo
No lugar onde antes assoberbavam as residências uni-familiar

Diriam os saudosos que naquele tempo era-se mais feliz
Diriam os progressistas que nestes tempos há mais fortuna

Eu digo que na imensidão de palavras escritas
Há sempre uma vírgula a complicar suas compreensão

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O TEMPO




Desejo permanecer,
Mas há um vão pelo qual escorro,
Uma ampulheta colocada fora do pedestal
E bem longe do altar
E que me arrasta,
Lenta e suavemente,
Em fragmentos,
Para o
Sempre.

O tempo não me melhora: corrói-me.

Enxergo menos nítido
E ando com menos pressa,
E aonde eu vou
Eu chego e já é passado.

O tempo não me refina: estorva-me e me torna um chato.

Confio menos nas palavras
E na bondade eu creio com desconfiança.

Produto inacabado,
No ângulo do esquadro
Em não me enquadro por inteiro.

Eu, efeito de sua perecibilidade,
Jamais vencerei a batalha dos
Imortais.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

MARTA HELENA CASSIANO



ELA PINTA COM A ALMA


O que é um artista? Copiando o enunciado do Dicionário Caldas Aulete, temos essas definições para artista: 1 Pessoa que se dedica a uma atividade artística 2 Pessoa que demonstra sensibilidade e gosto por arte 3 Ator de teatro, cinema, televisão ou circo 4 Artífice talentoso e engenhoso. Marta Cassiano é uma artista. É por se dedicar a uma atividade artística e porque é pessoa de grande sensibilidade e bom gosto. Em meu entendimento, artista é alguém que consegue criar, do nada aparente, da confusão do caos, belezas inimagináveis. Um artista é um individuo que tem em suas veias o sangue diferencial para a beleza de encher os olhos. O traço firme, surreal, de Marta Cassiano, coloca-a num patamar mais elevado: ela não é coadjuvante, é a atriz principal.



Entrevista com a artista Marta Helena Cassiano

Nome completo: Marta Helena Cassiano

Idade: 44

Lugar onde nasceu: Taguatinga - DF

Mora a quanto tempo em Luziânia: 34 anos

A pintura para você é: Estar em outro tempo, e em outra dimensão.

Por que você pinta: Porque por um momento me sinto liberta de mim mesmo.

Sente necessidade de pintar: pintar para mim é como viajar, não tão necessário nem esperado o momento da chegada ao destino, mas sim o exato momento da hora de partir, sair, soltar-se, desprender-se, libertar-se para um outro mundo, um mundo surreal.

Poderia viver sem pintar: Tanto quanto posso viver sem voar, imensamente triste, mas viveria.

Particularidades de sua vida: Sou viajante, ilumina meu coração uma luz maior, meu objetivo e minha particularidade é alcançar essa luz. (Gostaria muito de poder levar comigo tantas quantas pessoas quiserem vir). ESSA LUZ, ESTRELA RESPLANDECENTE DA MANHÃ chama-se JESUS CRISTO.

Sua personalidade: Esta se formando ao longo desta caminhada, tentando se tornar o mais justa possível.

Pintar é uma forma de se expressar: Diria que uma forma de me satisfazer, mas... Que não deixa de ser também de se expressar.

Os pintores veem o mundo de outro jeito: Acho que o artista enxerga, sente, percebe e ouve coisas de uma forma mais sensível, mais apurada que as outras pessoas.

Desde quando se dedica à pintura: “Dedicar” Desde outras vidas eu acho, não sei bem ao certo. Pintar para mim não tem tempo nem tem hora, não tem dimensão nem espaço, tem sim um estado de graça, de elevação de sensibilidade, e de prazer.

Pintar é um dom: É um dom de Deus.

Você aprendeu a pintar ou já nasceu pintora: Já nasci com necessidade de me expressar, antes mesmo de compreender o que, nem porque, nem para que. Posso dizer que nasci gostando muito de desenhar e pintar, falta mesmo é tempo para me dedicar mais.

A pintura realiza você: Momentaneamente sim, ainda não sei pintar bem, não me sinto totalmente realizada sei que ainda falta muito estudo e muita dedicação.

Gostaria de viver somente do seu trabalho artístico? Sim, gostaria.

Você pinta suas agonias: (RISOS) Não até porque não conseguiria pintar estando em estado de agonia, mas somente em estado de graça.

O que lhe agoniza: Estar presa em mim mesma, limitada.

Você espera o reconhecimento das pessoas: Reconhecimento não, até porque sei que o que eu faço não é somente por mim mesmo, mas faço porque JESUS assim o permite. Espero simplesmente que elas gostem.

Você sente, ou já sentiu que o seu trabalho não é valorizado: Tudo que fazemos com amor, realização pessoal não tem como ser pesado, nem como ser medido, simplesmente não tem preço, se não está muito bom serve como referencia para projetos melhores. Graças a Deus nunca me senti assim.

Quem compra sua pintura? Quem é seu público alvo: Pessoas que se identificam com elas.

Qual é o seu tema preferido: Relação homem e natureza.

Quem são seus ídolos no tocante à sua arte: No tocante a minha arte, desconheço.
Salvador Dali? Não sei...

Em qual escola (de arte) você se inclui: Escola Surrealista

Que material você utiliza: Tinta óleo

Sempre utiliza o mesmo material: Até agora sim.

Luziânia tem bons artistas: Sim, muitos.

Que falta para eles aparecerem: Para qualquer artista “Pintar com a alma”. Acreditarem em si mesmos.

Compraria um quadro/obra seu/sua: Sim.

Que preço pagaria: O preço que a meu ver fosse justo.

Que recado daria para quem quer investir na carreira: O verdadeiro artista nasce se descobre e vai se aperfeiçoando, ele nunca pensa em investir na carreira, e sim em se descobrir como um ser humano melhor, um profissional melhor, muito estudo, muita dedicação, e perseverança. Ai sim, ele terá uma carreira satisfatória.

Você gostou da entrevista: Gostei, gostei mais ainda de saber do seu interesse pelo meu trabalho, fico feliz e sinceramente agradecida.

Algo mais que queira considerar: Gostaria de agradecer a oportunidade de participar do seu trabalho, e te dizer que admiro muito sua determinação, sua dedicação aos estudos, garra e persistência. Estou torcendo por você. Parabéns.

O QUE DISSERAM DELA:

"A verdadeira arte entra pelos olhos, ecoa nos ouvidos e se recria na contemplação. A verdadeira arte tende a contemplar o silêncio"

A Arte de Marta Cassiano:
Júlio Rocha

sexta-feira, 8 de maio de 2009

MINHA MÃE E TODAS AS MÃES DO MUNDO


Tua é a doçura,
A candura e a simplicidade.

No velho álbum de retratos
Há uma amostra dos teus anos,
Como eras bela, jovem, forte e tenra...

Os teus olhos brilhavam diante do espelho.
Havia, no firmamento,
Um azul encantador;
E nos quintais
Fragrâncias para o teu banho...

Como era doce
A entonação de tua voz,
Suave como o entardecer
E o sol se declinando,
Fazendo uma imensa sombra
De muito longe...

Teus dedos inquietos riscavam,
Nas páginas de diários,
A estrada para os teus pés:
Velhas trilhas para a humanidade.

Naquele dia em que ele chegou
Trazendo flores,
A tua reação foi tão engraçada,
Mas ninguém falou.
Você se alimentou no beijo...

Quando veio a criança
Tua alma se regozijou:
É um menino!

Depois disso,
Só havia uma pessoa importante no mundo,
O fruto do amor divino.

E mesmo hoje, como faz você,
Fazem todas as mães do mundo:
Doam-se em beleza, em bem-aventurança,
Em voz, glória e encanto
Ao fruto de sua claridade.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

A IGREJA DO MILAGRE


A IGREJA DO MILAGRE

Gostamos de acreditar que a Igreja do Rosário é milagrosa. No imaginário popular, a igreja é muito mais que um santuário de fé e devoção. É um templo onde fenômenos, cujo único epíteto é milagre, ocorrem.

Esta é uma das muitas histórias dos antigos. Dizem os mais velhos que nos idos de 1945, às sete horas da manhã de um domingo, um pai subiu a rua, naquela época de terra batida, em busca do consolo paroquial. O filho mais velho dele havia morrido havia poucos dias numa incursão da FEB, em Monte Castelo, na Itália, e o filho mais moço jazia acamado, com uma doença que os médicos da época não souberam diagnosticar.

O homem subiu a rua chorando e soluçando. Tinha nas mãos um rosário de muitas contas e no peito uma dor do tamanho do mundo. Dizem que quando ele alcançou a sombra da igreja, que se lançava solene sobre o chão numa dimensão muito extensa, desmaiou. Depois do que pareceram horas, pensou ter ouvido uma voz: “Acorda, Felício. Vá para casa”.

Ele se levantou, sacudiu a poeira, olhou em volta, mas não havia ninguém. A igreja ainda estava fechada porque no começo da noite anterior havia chovido muito e o padre não quis realizar a missa no horário de praxe para não sobrecarregar os fiéis.

Seu Felício, aturdido, ergueu a cabeça e procurou de onde saíra aquela voz, que ainda renitia em sua memória: “Vá para casa”. Ele obedeceu. Enxugou as lágrimas, se ergueu, sacudiu a poeira e desceu a rua, na direção de casa. Ia cabisbaixo quando, de súbito, um vulto apareceu no horizonte. Dizem que era o filho, que vinha buscá-lo, montado no cavalo branco que Felício lhe dera. O garoto estava completamente são.

Seu Felício, como gratidão, construiu um cruzeiro de madeira e colocou fincado na frente da igreja. Até hoje o cruzeiro está lá, pintado de branco. É o primeiro que a gente avista quando sobe a rua.

Faz pouco tempo, uma velhinha coxa passava em frente à igreja. Roteiro habitual. Todos os dias a senhora fazia a mesma prece: “Valei-me, meu São Jorge Guerreiro!”. Todos os dias, durante muito tempo, ela fazia o mesmo trajeto e a mesma prece: “Valei-me, meu São Jorge Guerreiro!”.

Dizem que um dia, às sete horas, quando ela alcançou a solene sombra, ainda mancava. Contudo, quando cruzou a extensão da sombra, andava firmemente, sem qualquer problema na perna.

Esta história foi contada por um mestre de obras, que construía uma casa pouco mais de 300 m dali. Ele estava lá todos os dias, havia trinta dias, e todas as manhãs ele observava a velhinha, que sempre cruzava a sombra na mesma direção, fazia uma prece e seguia. Ele ficou tão surpreso, que correu, ele e todos os seus ajudantes, e se ajoelharam na sombra, beijando o chão e fazendo reverência à Igreja.

Disse, no entanto, que a senhora simplesmente continuou seu trajeto, sem se dar conta de que estava sã, mas que, no outro dia, quando ela passava, trouxe uma pequena oferenda e depositou aos pés do cruzeiro. Curioso, ele retirou a oferta do local e leu. Tratava-se de uma pequena oração, escrita em letras tremidas: “Agradeço-te, meu São Jorge Guerreiro, que na hora de minha agonia me valeu”. Eles não viram mais a velhinha.

Talvez o leitor se pergunte por que escolheu ela São Jorge. É simples. São Jorge é o santo que melhor representa o sincretismo entre o catolicismo e as religiões africanas. Além disso, é o santo “guerreiro” cuja luta interminável emociona, inspira e exemplifica.

Como dizem os antigos, para cada pessoa existe apenas um milagre. O daquele pai foi o restabelecimento do filho. O da velhinha, a cura da perna. O do pedreiro foi ver o milagre da velhinha. E o nosso será perpetuar essa fama.

terça-feira, 14 de abril de 2009

O DIA DE HOJE




Descubro diariamente que a vida é maravilhosa,
E de sua suavíssima melodia tiro forças.
Sou um módulo para poucas coisas,
A parte mais importante de mim
É o que penso.
Sei pouco,
Mas o que sei é suficiente para meu dia.
Minhas pretensões são grandes,
Quero usufruir o bem e a paz,
A relva e o sereno,
A noite e o amanhecer
Porque cada instante é único
E em cada instante sou também único.

Entretanto, o melhor momento da vida é este dia.
Aqui estou vivo, aqui me realizo.

Este dia é a vida em seu regozijo.
É neste dia que a iluminação vibrante do firmamento
Recai sobre nossas cabeças
E anuncia a grandiosa dádiva divina,
Tanto assim que a chamamos PRESENTE.

Descubro a cada dia que a vida é maravilhosa,
E de sua gratíssima bondade cultivo os meus amigos.

quinta-feira, 5 de março de 2009

SUPERMERCADO DA FÉ

Um amigo que estava em viagem regressou e me trouxe “uma lembrancinha”. Era um ícone de Cristo, item obrigatório nos carros. Trata-se de um rosto em formato simples, de onde se distingue apenas uma coroa de espinho, os olhos e a barba, um aspecto entristecido envolto em um rosário. Meu amigo me disse que era “uma lembrancinha última moda do tipo todo mundo tá usando”. Não sou religioso e não cultuo nenhum tipo de imagens ou adornos que lembrem santos, Nossa Senhora ou Jesus; tampouco sou afeito a coisas “última moda que todo mundo tá usando”. Entretanto, o presente me fez pensar em quão fácil é vender Jesus e quanto dinheiro se ganha com a imagem divina.

Vejamos: Jesus, quando pregador, ficou indignado com os vendedores na porta do Templo de Jerusalém, pois o lugar deveria ser chamado “Casa de oração”. Por mais de uma vez expulsou os cambistas do terreno sagrado porque ali não era o lugar apropriado para se fazer o comércio. Comércio, aliás, que ele relegou a segundo plano por servir aos propósitos de César, não de Deus. Hoje, a pessoa não consegue andar nas escadarias de qualquer igreja sem tropeçar em vendedores de imagens de santos e de Deus...

A quantidade de adereços, escapulários, santinhos, rosários, cruzes, para a pessoa levar no pescoço, na carteira, no bolso, não tem contagem. Amuletos de sorte, de reza, de proteção contra tudo, não cabe na imaginação. Santos com os mais diversos nomes, origens, feições e atribuições, não cabem no panteão. E todos são bem rentáveis. Vende-se Cristo, a Palavra de Deus, a imagem de Deus mais até do que se vende água. É incrível como a boa fé do povo serve perfeitamente aos interesses dos agentes comerciários. Contudo, não deixa de ser curioso que a Igreja não faça nada contra esse comércio. Não por ser ilegal, mas por ser banal. Banaliza-se o redentor; vulgariza-se o cristianismo; comercializa-se a fé.

A fé não é mais a expectativa de coisas não observadas. É show. É mostra em televisão. Deixou de ser caminho de pedras para ser a exposição banal da mídia. Não requer mais esforços, requer aceitação bovina. A Palavra Divina e Jesus são expostos cruamente pelos televangelistas, e o população precisa apenas depositar alguns trocados em envelopes. Se a pessoa não tiver em espécie, isso não é problema: os grandes templos já contam com máquinas para cartão de crédito. A busca pelo divino não envolve mais abnegação e entrega, a não ser entrega de recursos. Além disso, a pessoa ainda pode adquirir diversos itens por uma pequena bagatela, para proteger o lar, a vida diária, a família...

Fico imaginando quão grande seria a indignação de Martinho Lutero nos dias de hoje. Conquanto a venda de indulgências, nos seus dias, o fez rebelar-se contra sua fé, num protesto que acabou por criar o que hoje chamamos de “Religião Evangélica”, hoje ele teria que se calar, revoltado, ou escrever artigos para jornal, mas sem ser ouvido ou, no máximo, ser taxado de herege por estar blasfemando contra a fé, afirmando que vendem Cristo... Entretanto, como diz meu amigo, “Todo mundo tá usando!” e, por esta razão, existem muitos "supermercados da fé" por aí.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

D.J. OLIVEIRA




Quem é D. J. Oliveira

Nascido em Bragança Paulista, SP, em 14 de novembro de 1932, e falecido em Goiânia, D. J. Oliveira já se considerava goiano, tendo chegado em 1956. De 1961 a 1972 lecionou Pintura, Desenho e Gravura na Escola Goiana de Belas Artes da Universidade Católica de Goiás. Gravador, cenógrafo, figurinista, professor, desenhista e pintor, ele se definia "apenas e fundamentalmente um pintor".

Trabalhou com pintura e desenho publicitário, fazendo vitrines e cartazes; criou cenografias e figurinos para o Teatro de Emergência; na fase de mural, executou uma série de trabalhos nesse gênero para a UCG e Universidade Federal de Goiás, para a Embaixada da Tchecoslováquia, em Brasília, e para a Casa do Brasil, em Madri, Espanha, entre outros; e lançou vários álbuns de gravuras. Realizou oito exposições individuais - tendo a primeira delas sido realizada em Goiânia - e 27 coletivas, das quais resultaram vários prêmios.

D.J.Oliveira esteve sempre vinculado à figura, da qual nunca se afastou sequer um passo, como explica o crítico de arte Olívio Tavares Araújo, que enfatiza: "Sua proposta permanece no plano dramático. Fala, com uma linguagem de fundamentos expressionistas, das contingências atuais do ser humano: a perplexidade, o medo, a solidão, a inutilidade de certos esforços para a solução de seus problemas. E seu expressionismo vem mesclado de uma surda e contínua ironia, através da qual o pintor denuncia um mundo inclemente e insolúvel. (...) Sem ser um intelectual, possui ampla vivência visual, trazida de sua viagem à Europa, bem como sólidas noções de teoria. Seu processo de criação tem duas etapas: a primeira, instintiva, que se ocupa do tema; a segunda, racional, que o elabora em termos de composição. Nas obras mais recentes, a racionalidade se acentua, numa certa tendência à construção mais geometrizada e rígida do espaço. Nada disso altera, contudo, a natureza fundamental da proposta de Oliveira. Para ele, a obra de arte é o produto da emoção. E a ela se dirige, inevitavelmente, sem subterfúgios, sem saltos no escuro, sem o temor de ser apenas (mas sólida) pintura".

D.J. Oliveira pintou diversos painéis que enfeitam a Praça das Três Bicas, em Luziânia.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

ILUSÃO DO HOMEM SÓ



Quantas palavras caem sobre o silêncio,
No vazio dos dias,
Mas nada dizes...

Por que, ó ilusão, calas-te,
E em silêncio rasgas meu coração?

Sem o saber, dificultas o fluir do meu sangue
E permites que a desilusão do mundo invada-me por meus olhos,
Sedentos de ver,
E se aloje em meu corpo,
Sedento de vida.

Por que te calas,
Majestática entre escombros,
Quando meu coração se subjuga sob teus pés,
Esperando que o pises,
Mas que ao menos por ele passe?

Por que te calas,
Se nesta vida
És a expressão derradeira de toda a minha vontade?

Pois, se tenho este corpo –
E dentro dele minha alma delimitada –
É somente para te adorar.

Pois falas-me, eterna serenidade,
Pois até mesmo essa matéria
Que existe para o teu uso
Também há de se desintegrar...

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

ESPERANÇA


Há algo novo se espalhando pelo ar:
Um sentimento que não se pára pra sentir,
Voz muito altiva impossível não se ouvir,
Gesto ignoto que não dá pra decifrar...

É Rock ‘n Roll, pedras rolando, puro som,
O grande urro de uma déia, a mais bonita,
É obvio, tempo, intuitivo, puro e bom,
Intervalo, uma luz bela, fuga infinita...

É do peito donde emerge o sentimento,
Vem com a noite, como a morte, indefinido,
É sonho velho, anjo novo, grande amigo,

Está no ar se divagando no momento
Em que te encerras no teu seio, deprimido,
E mora e dorme no teu peito, um inimigo...