quinta-feira, 5 de março de 2009

SUPERMERCADO DA FÉ

Um amigo que estava em viagem regressou e me trouxe “uma lembrancinha”. Era um ícone de Cristo, item obrigatório nos carros. Trata-se de um rosto em formato simples, de onde se distingue apenas uma coroa de espinho, os olhos e a barba, um aspecto entristecido envolto em um rosário. Meu amigo me disse que era “uma lembrancinha última moda do tipo todo mundo tá usando”. Não sou religioso e não cultuo nenhum tipo de imagens ou adornos que lembrem santos, Nossa Senhora ou Jesus; tampouco sou afeito a coisas “última moda que todo mundo tá usando”. Entretanto, o presente me fez pensar em quão fácil é vender Jesus e quanto dinheiro se ganha com a imagem divina.

Vejamos: Jesus, quando pregador, ficou indignado com os vendedores na porta do Templo de Jerusalém, pois o lugar deveria ser chamado “Casa de oração”. Por mais de uma vez expulsou os cambistas do terreno sagrado porque ali não era o lugar apropriado para se fazer o comércio. Comércio, aliás, que ele relegou a segundo plano por servir aos propósitos de César, não de Deus. Hoje, a pessoa não consegue andar nas escadarias de qualquer igreja sem tropeçar em vendedores de imagens de santos e de Deus...

A quantidade de adereços, escapulários, santinhos, rosários, cruzes, para a pessoa levar no pescoço, na carteira, no bolso, não tem contagem. Amuletos de sorte, de reza, de proteção contra tudo, não cabe na imaginação. Santos com os mais diversos nomes, origens, feições e atribuições, não cabem no panteão. E todos são bem rentáveis. Vende-se Cristo, a Palavra de Deus, a imagem de Deus mais até do que se vende água. É incrível como a boa fé do povo serve perfeitamente aos interesses dos agentes comerciários. Contudo, não deixa de ser curioso que a Igreja não faça nada contra esse comércio. Não por ser ilegal, mas por ser banal. Banaliza-se o redentor; vulgariza-se o cristianismo; comercializa-se a fé.

A fé não é mais a expectativa de coisas não observadas. É show. É mostra em televisão. Deixou de ser caminho de pedras para ser a exposição banal da mídia. Não requer mais esforços, requer aceitação bovina. A Palavra Divina e Jesus são expostos cruamente pelos televangelistas, e o população precisa apenas depositar alguns trocados em envelopes. Se a pessoa não tiver em espécie, isso não é problema: os grandes templos já contam com máquinas para cartão de crédito. A busca pelo divino não envolve mais abnegação e entrega, a não ser entrega de recursos. Além disso, a pessoa ainda pode adquirir diversos itens por uma pequena bagatela, para proteger o lar, a vida diária, a família...

Fico imaginando quão grande seria a indignação de Martinho Lutero nos dias de hoje. Conquanto a venda de indulgências, nos seus dias, o fez rebelar-se contra sua fé, num protesto que acabou por criar o que hoje chamamos de “Religião Evangélica”, hoje ele teria que se calar, revoltado, ou escrever artigos para jornal, mas sem ser ouvido ou, no máximo, ser taxado de herege por estar blasfemando contra a fé, afirmando que vendem Cristo... Entretanto, como diz meu amigo, “Todo mundo tá usando!” e, por esta razão, existem muitos "supermercados da fé" por aí.