segunda-feira, 8 de novembro de 2010

PELO SONHO É QUE VAMOS

Pelo Sonho É Que Vamos

1

Desabrochada no deserto voz humana
Descampada no sereno e no abandono
Desterrada por inverno em noite inglória
Desgastada num repuxo o seu engano

Revertida para a morte em confluência
Repousa sobre o chão como em candura
Repisada a juventude e a inocência
Retorna humana a andar na lama escura

Concisa humana voz pretensiosa
Precisa e laboriosa voz humana
Louvada humana voz silenciosa

Silenciosa desce à terra sem importância
Porque agrada ao ditador calar-te a ferro
Feroz a voz humana em arrogância...

2

Repisa no humano o tanque bruto
Refreia o humano a mão ditosa
Regurgita sobre o homem o seu esputo
Reverte a voz humana à sepultura

Despenca feito a noite a foice impune
Desprende do seu tronco humana sede
Depura com furor humano estrume
Desfigura a inocência e a encobre

Calar-te humana voz é imperativo
Amordaçar-te é impreciso voz humana
Impreciso imperativo é assassinar-te

Geme em cadafalso teu ativo,
Retorce tronco frio sem cabeça
Reconta teu espólio e o reparte

3

Desovam na avenida o corpo inerte
Desprezam a sapiência e sutileza
Degolam sem pudor a quintessência
Derramam sem ardor sua beleza

Retinem nas igrejas sinos velhos
Reprimem humana voz com imponência
Remexem antigas chagas desatinos
Reorganizam gagá livro de incoerência

Inconforme voz humana não se eleva
Sobe aos céus o terror do potentado
Descem ao chão humana voz que se desterra

Emasculada voz humana em tenra idade
Proíbem cedo de falar e de ser gente
Matam seu fruto o progresso a humanidade

4

Remarcam a ferro a face angustiada
Refazem gente em fantasma sem cidade
Recriam medos na insolvência malfadada
Removem ânsia comichão e ansiedade

Destinam o ser vivo ao poço infindo
Desvelam silenciosa nova gente
Debatem seus projetos de robótica
Desgastam voz humana em seu nascente

Inglório o dia novo nasce escuro
Em bruma em ácido em névoa envolvido
Em tiro em busca em grito em gemido

Inoportuna humana voz em louco estigma
De carne dura e de gosto impalatável
Sem se calar tenta mudar o paradigma

5

Por nossas mãos soerguerá a liberdade
Ganhará voz o calado em nossa boca
Terá sucesso em nossas mãos o renegado
Reunirá força em nossa espada a gente tosca

Liberdade em nosso nome ensinaremos
Lutar vencer seguir avante espada erguida
Devorar carne vomitar atear fogo
Plantar colher sobreviver de nossa lida

Perpassaremos nosso sonho realizável
Às mãos humanas de feitio honestidade
E cobraremos dessas mãos o que pagarmos

Sem medo ira sem fuzil sem descalabros
Repito o dito “Pelo sonho é que vamos”
Em nossas faces brilhará a Liberdade!

sábado, 23 de outubro de 2010

CÍRCULO

Nunca mudo,
Escreve, odeia e sente,
Sobretudo sente o mundo
Confuso e maledicente.

Nunca mudo,
Escreve, sente e odeia,
Sobretudo odeia o mundo
Maledicente e cadeia.

Nunca mudo,
Sente, odeia e escreve,
Sobretudo escreve o mundo
Cadeia, confuso e breve.

sábado, 25 de setembro de 2010

O POETA



Às vezes eu queria ser um ignorante... mas sou poeta!

Ninguém escreve poesia porque é bonitinho.
Mas porque a humanidade está cheia de sentimentos.

A poesia é uma arte sugestiva que se utiliza do símbolo e se recusa a imitar a vida. Por esta razão, estimula a imaginação do leitor e se apodera de seus sentimentos, incitando-os a ardorosas ações. A poesia também apela ao intelecto e é capaz de “ministrar diretamente lições de profunda sabedoria”. Devido a sua própria estrutura, a poesia é necessária em épocas de predomínio da razão a fim de dar vazão às emoções. A humanidade, com suas lutas, com seus sentimentos e seus conflitos, clama por alguém capaz de expressar seu espírito para logo depois esquecer suas dores, ou mesmo para acentuá-las ainda mais, como se feridas fossem abertas, ou expostas, ou cutucadas até o limite. O poeta é o porta-voz de uma mentira que embeleza a vida, de uma seqüência de verdades incrustadas numa mentira, de um mundo imaginado, simbólico, irreal e imortal e, por isso, belo. Munido de sua fé, o poeta se lança no mundo que o circunda, nos bosques, nos campos, nos riachos, nas flores, nos canteiros, nas cidades, nas lutas e até nas tristezas desse mundo, quase tudo despojado completamente de adornos, e os faz substância de sua arte, e cria uma beleza resultante de sua imaginação, transforma em grito simples palavras e adere à luta dos povos, denuncia as indiferenças, desmascara os preconceitos, desmistifica as grandezas e berra à ação. A poesia move os povos, transformando-os. O poeta é o agente dessa transformação.


(Texto encontrado num site da internet - Desconheço o autor)

quarta-feira, 7 de julho de 2010

A DESPEITO DE UM RETRATO...


A despeito de um retrato...


Você me vê.
Olha o meu retrato e me vê, projetado por uma lente,
E acredita que, ao ver minha imagem, sabe que eu sou.
Não sabe, não.
Minha alma é grande, não cabe na foto.
Meus desejos são imensos,
Minhas contradições abundam.
Minha vida não cabe no retrato.
Não olhe para minha imagem acreditando que me vê.
Não vê!
Eu,
Toda a minha essência,
Estou mais nas palavras que escrevo do que
Na foto que projeta minha imagem.
Imagem não é nada,
É apenas uma representação infiel daquilo que não sou.

Eu não tenho rótulos e nem sustento dogmas.

Meu universo...
Escadas se rompem sob meus pés
E agora me vejo caindo,
Com meu coração vazio,
Como se uma mão enorme
Houvesse tirado dos meus pés o chão.
Miro o solo...
Em poucos momentos não serei mais...

Mesmo agora me pergunto: quem sou?

Eu mesmo não tenho nenhuma resposta,
Apenas uma vaga orientação:

Al Yasa é meu nome,
Por ele sou grande,
Existo e me realizo.
Para além de mim
Não há mais nada.

Alegro-me por você te vindo...

terça-feira, 8 de junho de 2010

O ÚLTIMO ATO



O ÚLTIMO ATO


No parapeito,
Ele finalmente tentou se reencontrar.
Onde estava, e o que havia dentro de si,
Tentou ver ao fechar os olhos.

Tolice!

Quando você fecha seus olhos,
O mundo não se abre nem se parece mais lindo,
Ele se fecha.
E tudo o que existe
É a escuridão.

E mesmo que você busque,
Tateando,
Não encontrará consistência,
Porque o negrume não tem espessura
Ou volume.

Precipitou-se do parapeito com os olhos fechados,
E o vazio o acolheu...

terça-feira, 11 de maio de 2010

O DIA EM QUE MORRI





Hoje eu sou um espírito andando por aí. Como uma sombra, tenho grandes virações e experimento ver o mundo de uma maneira que nem mesmo quando eu ainda vivia em meu corpo humano jamais experimentei ou sonhei. No entanto, naquela noite em que morri eu estava calmo.
Recordo-me bem. Eu estava sentado num café, bebericando café e saboreando iguarias quando aquele homem chegou. Ele trajava uma roupa velha, muito gasta e tinha um odor amargo. Olhou o salão furtivamente, sem se fixar, mas reparou em todos os movimentos. Eu lia, mas vi quando ele me fixou, me olhando por sobre o ombro direito. Eu tentei desviar meu olhar, mas o homem me percebeu. Ele veio até mim e se sentou na cadeira vazia.
A barba hirta e suja, fedia. As unhas sujas começavam dedos grandes com nódulos salientes e cortes indistintos que marcavam a vida sem esmero daquele homem. A jaqueta vermelha rasgada e o velho jeans desbotado complementavam o visual dantesco sentado ali, bem próximo, me enojando. E eu, cristão, fingia bem ao incômodo que o asco daquela presença me infligia.
“Posso beber um pouco do seu café?”, falou ele com certa impaciência.
“Pode, pode”, eu disse sem me dar conta de que eu havia sobejado o café e deveria ter pedido um café novo para o meu “conviva”. O homem não se incomodou. Sorveu o café naturalmente, sem nem ao menos se importar com o gosto ou com a quentura do líquido, como se o interior daquele homem fosse tão áspero quanto sua pele.
“Me dá essa esfiha”, disse ele com a naturalidade de quem dá uma ordem. Eu o olhei e fixei, e ele me olhou em revide. E eu, sem nada dizer, empurrei a esfiha para ele. Ele estendeu a mão grosseira, segurou o salgado e, em duas ou três mordidas, consumiu-o com a mesma voracidade daquele homem do poema de Bandeira. Se ele pedisse, eu teria lhe dado mais algumas esfihas. E eu olhava atentamente.
“Você é bom”, ele disse. “Está com nojo de mim, mas é bom”, ele asseverou. Isso me acalmou e eu fui, aos poucos, recobrando a sensibilidade, me desarmando. Então, o homem apanhou o revólver.
“Pessoas boas sofrem neste mundo”, disse o homem, me mostrando a arma, que também não brilhava.
“Está carregada, esta arma”, disse ele, percebendo minha curiosidade. “Pessoas boas merecem o céu, não este mundo doente”, garantiu ele. “Você está preparado para partir?”, ele quis saber.
Eu o olhei com ansiedade. Não sabia o que dizer, mas tentei manter a minha calma, e disse, mas para mim que para ele: “há alguém que está?”.
“A gente não devia se apegar tanto, sabe? Nós somos amigos e vamos partir juntos”, disse ele.
“Você vai me matar?”, eu quis saber, olhando ainda para aqueles olhos quase ocos.
“Vamos nos libertar”, ele afirmou. “Esse mundo não merece nossa existência”, afirmou ele categoricamente.
Eu revi minhas realizações e concluí que meu nome não estava associado a nada grande, a nenhuma realização importante. E isso me angustiou mais do que ver aquela arma sem brilho empunhada por aquela mão suja, mas com firmeza, e ponderei que aquele homem tinha mais firmeza em suas vontades que eu. “Posso fazer uma ligação?”, eu perguntei, mostrando a ele o celular.
“Receio que não vão dar ouvidos a um morto”, ele disse, levantando o revólver, encostando-o no meu peito e atirando. Eu caí com o tiro e não vi nem ouvi mais nada. Instantes depois havia uma multidão curiosa em volta de dois corpos caídos, um com um furo no peito e outro com um furo na cabeça. Na mesa, o celular aceso lembrava o último pensamento que tive no instante final de minha vida, e a última voz que eu quis ouvir dizendo alô, sem resposta, e era o seu o número que eu havia digitado no dia em que morri.