sábado, 8 de abril de 2017

O ÔNIBUS DO HORROR

O ônibus do horror Um dia chuvoso na agitação de uma cidade, horário de pico. O ônibus 247 da Viação Boa Viagem fazia seu trajeto habitual pelo centro da cidade, com itinerário para um bairro da periferia, cerca de 3 quilômetros. O motorista faz paradas ante solicitações em cada ponto, e as pessoas vão se amontoando nas cadeiras e no corredor, até que o veículo fica lotado. A lotação máxima acontece muito antes do destino, mas mesmo assim o motorista vai parando, alguns descem e muito mais gente vai subindo. É por isso que ele tem o sugestivo nome de coletivo, porque vai “coletando pessoas como se fossem contribuição, parada após parada”, para, ao final, despejá-los em algum lugar. Essas características não deprimem o motorista, o cobrador ou muito dos passageiros, acostumados que estão às mesmíssimas coisas todos os dias. É uma parte nefasta da cruenta luta diária dos trabalhadores, mães, pais, estudantes e velhos do Brasil. E assim é em todo o território nacional: onde quer que haja um aglomerado de gente, há uma empresa explorando o ramo do transporte, mas sem dar condições humanas aos usuários. No geral são carros velhos, superlotados. Homens se esfregando, pessoas se empurrando, crianças chorando, mulheres grávidas e gente idosa reclamando um assento. Indiferente, o vagão humano segue, em sua habitual rota, para o seu destino. O espaço interno só voltará a ser habitável pouco antes da última parada. É uma arca de Noé com rodas, trafegando nas rodovias, prenhe de bichos humanos, esses resmungando de sua malfadada vida e se lamentando, fazendo careta. Que importam os descontentamentos, os odores ásperos, a falta de tato dos usuários, o cansaço, os trancos da pista? Prestes a fazer uma nova parada, um baque faz o motorista brecar bruscamente. O impacto não foi muito violento, mas mesmo assim pessoas, ainda que tentassem se segurar, caíram, formando um amontoado disforme. Uma jovem grávida do primeiro rebento, caiu sentada nas pernas de um provável cavalheiro e teve contrações, mas foi apenas um susto. O homem que tentara segurar a jovem foi arremessado para o chão devido ao peso da moça e a força do impacto. Um senhor, que já não possuía mãos firmes, foi arremessado para trás, mas foi detido de queda certa por outros homens que o rodeavam. E uma senhora, que carregava sacolas, decidiu que iria esperar a normalidade para recolher os pertences despejados. O condutor olhou o amontoado humano e esboçou um sorriso intranquilo. Aquilo não deveria estar acontecendo na sua viagem final. Desceu e olhou rapidamente o que havia acontecido. Tinha atropelado um cãozinho de rua, mas isso não causou avarias ao veículo. Podiam continuar. Quis esticar os braços acima da cabeça, entrelaçar os dedos, dar uma volta completa ao redor do veículo, mas estava chovendo ainda. Então, simplesmente cuspiu e voltou ao assento para dar partida no carro. Tinha para si que umas cinquenta pessoas desejavam findar esse dia difícil e careciam de comida e de descanso, e não queria ser o elemento impeditivo. Essa falha não estava no roteiro. Não, não no ônibus dele, mas acidentes acontecem. Felizmente, tudo parecia bem com o veículo. Ao se posicionar no assento, fechou a porta por causa da chuva, girou a chave e deu partida ao veículo. Sentiu imediatamente uma dor de cabeça e começou a ter dor nos olhos e a ter visão turva. Ao olhar para o interior do ônibus, pareceu que o amontoado de gente estava tossindo. Retomou a direção do veículo e, em direção reta, fez o carro despencar num barranco. Levou pouco mais de duas horas para chegar o socorro. Um homem que tentou ajudar não teve sucesso, pois não possuía ferramentas grandes de corte. As portas estavam trancadas e as janelas não se romperam com o impacto. Ele tentou desarraigar algumas janelas, mas não obteve êxito. Resolveu convocar o Corpo de Bombeiros e o SAMU. Depois dos socorros, somente uma pessoa permanecia viva: a moça grávida. Havia uma máscara sobre seu rosto. Ao seu redor, umas cinquenta ou sessenta pessoas caídas não podiam dar resposta. Encontraram um jornal sob um dos assentos, e um saco plástico no meio da gente. Um saco plástico pequeno perfurado por uma faca. O agente biológico liberado matou quase imediatamente cinquenta e três pessoas. As portas e janelas fechadas não permitiram a dissipação completa do gás, e houve momentos de horror. Assim que a totalidade do ônibus foi alcançada, passageiros ficaram incapacitados. Seus sistemas nervosos não conseguiram gerar estímulos nervosos, e suas funções vitais foram comprometidas. Tosse, ardência nos olhos, visão turva. As pessoas começaram a morrer. O terrorista se aproveitou do choque para detonar sua arma. Usou um canivete para abrir o pacote e o jogou no centro do aglomerado disforme que se fez com a batida. Ninguém saberá dizer porque um ser humano, indivíduo pensante, aparentemente vigoroso, robusto, foi capaz de algo tão estúpido contra a vida. Ninguém jamais sabe dizer. Nosso choro sempre parece em vão. Que tipo de humanidade habita esse planeta? Todavia, antes de sua ação final, algum sinal de remorso deve ter se passado por aquela cabeça, pois ele emprestou sua máscara à jovem grávida, na tentativa de preservar a vida que ela carregava. Al Yasa ibn Jivrail

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

VOCÊ TEM O GOVERNO QUE “MERECE”?




“Cada povo tem o governo que merece”, asseverou Joseph-Marie Maistre (1753-1821). Trata-se de uma constatação absurda e cruel e denota apenas uma desesperada opinião.
Obviamente, saem das urnas os políticos que dizem o que o povo quer ouvir, não quem diz a verdade. Quem inventa consertos mirabolantes, não quem vê que algo está errado.
Indivíduos que põem o dedo na ferida e que se condoem com a situação precária da comunidade, da sociedade, e que deseja mudar o que existe por ver aí erros não terá vez no rol dos agraciados com o poder público a não ser em bem poucas vezes, quando a lucidez parecer acudir aos votantes.
Isso porque o povo, isto é, aquele que vota e legitima o poder, só gosta de quem lhe passe a mão na cabeça, de quem lhe dá algum “presente”, de quem lhe engane com promessas vãs.
Contudo, sair das urnas os políticos mais canalhas, e ser dado a eles o poder e o direito de decidir por todas as pessoas por determinado período não quer dizer que aqueles que não votaram nesses políticos mereceram sua eleição.
Todos podemos individualmente opinar, mas é a maioria quem decide e vence. Isto é a Democracia. O que não significa que mereçamos o governo daí formado. Merecer quer dizer “ser digno de”; é uma indicativa de que a pessoa fez uma ação digna de ser agraciada, de ser premiada, que fez jus a algo. Como se poderia falar em “merecer” um governo corrupto ou demagogo?
Considero a frase “cada povo tem o governo que merece” como um insulto cuja transparência recai apenas nos vencidos; advinda da opinião das pessoas que aceitam o que acontece sem mover uma única palha para modificar o que está errado, ainda que seja através de uma crítica. Ficar de braços cruzados esperando o governo da “maioria” fazer o que bem entende com a coisa pública, isso sim, é merecer o governo que tem.
Francamente, não mereço esse tipo de governo, e não sou partícipe na sua sustentação.

sábado, 10 de dezembro de 2011

LIBERDADE DE EXPRESSÃO: SERVE PARA QUÊ?


LIBERDADE DE EXPRESSÃO: SERVE PARA QUÊ?

A liberdade de expressão é um direito constitucional, mas é prejudicial e faz mal. A Carta Magna assegura que “é livre a manifestação de pensamento” (art. 5º, IV), mas o legislador se esqueceu de dizer que é melhor se manter quieto, calado, mudo, baixar a cabeça pra tudo, porque se a pessoa abrir a boca para falar, caçarão esse direito de todas as formas. Então, a pessoa precisa ponderar o que vai dizer, precisa ver em qual terreno escorregadio dos interesses está pisando, precisa ter o cuidado terrível de se omitir.
O mesmo artigo diz que “é velado o anonimato”. Ora, amigos, se o falante se mostrar, se tiver a petulância de erguer sua voz contra autoridades ineficientes, se tiver a desfaçatez de se aproveitar desse direito e cumprir com o dever que lhe é correlato, sofrerá consequências bastante desagradáveis.
A liberdade de expressão, a meu ver, só é válida quando a pessoa fala besteiras sem jamais opinar sobre algo de relevância. Esse direito constitucional só é aproveitado por quem não tem nada a dizer. Para pessoas que opinam, que se posicionam, que não se sentem perturbada com o descaso, que lutam por direitos, a tais pessoas a liberdade de expressão é apenas uma falácia.
Pergunto: a liberdade de expressão, direito constitucional, serve para quê? De minhas ponderações sobre a lei e sobre a necessidade de falar, eu não sei qual é a resposta. Mas tenho a leve impressão de que ela só serve para nos manter calados.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

NÃO IMPORTA ONDE VOCÊ JÁ CHEGOU. IMPORTA ONDE VOCÊ ESTÁ INDO

Na vida, muitos acontecimentos são questão de escolha, de estabelecer metas e de trabalhar para cumpri-las. Nem todos começamos bem a caminhada, mas no decurso de nossa jornada, podemos mudar a trajetória de nossas vidas e seguir um rumo estabelecido para alcançar objetivos que nos darão, no final, a sensação de que fizemos tudo o que queríamos fazer e que, por isso mesmo, a vida foi altamente bem-sucedida.

Um professor contou uma pequena história. Na história dele, o cara nasceu numa pequena cidade do interior, chão de terra batida, poucas alternativas. Ou seja, o começo não foi bom, mas isso não dependia dele. Dependia dos pais dele.

Esse cara, na vida adulta, se mudou para outra cidade. Quando casou, tinha pouco mais que dois colchões de solteiro, que de dia eram sofá e de noite eram cama de casal, uma tevê e alguns móveis de cozinha, e morava num pequeno apartamento de 38 m². No dia do seu primeiro aniversário de casamento, ele foi comemorar num restaurante bem simples e ali, no calor do acontecimento, traçou duas metas. Uma ele contou à esposa. A outra manteve oculta.

Ele disse: “Querida, hoje estamos comemorando um ano de casados. Estamos jantando aqui neste restaurante muito simples. Mas eu prometo que a cada ano, iremos comemorar num restaurante diferente e melhor. E quando completarmos cinco anos de casados iremos comemorar em Buenos Aires…” A esposa simplesmente riu, mas concordou. Como ela não havia “botado fé” na promessa, ele achou melhor não contar a outra (que era comemorar o aniversário de dez anos em Paris). Ou seja, para que seus esforços dêem certo, às vezes você precisa trabalhar em silêncio, “com as baratas”.

Enfim, ele trabalhou para alcançar suas metas. Comprou um velho Fiat Uno. Trabalhava durante o dia, e a noite estudava na UEB. Terminou a graduação, partiu para um mestrado. Assim, no aniversário de cinco anos de casado, foi comemorar em Buenos Aires. Quando completou o décimo ano, foi comemorar em Paris e, de quebra, fez uma turnê pelo “Velho Mundo”, como desejara, mas não dissera à esposa. Ou seja, embora começando com alguma dificuldade, você pode controlar os acontecimentos para realizar aquilo que deseja, ao estabelecer metas factíveis.

Hoje, esse cara é um profissional gabaritado em Brasília e disputado pelas instituições de ensino. O filho dele, de cinco anos, não tem carteira de identidade. Tem passaporte. Ou seja, aquilo que a pessoa consegue, a sua prole vai usufruir. E ele terá um começo melhor que o pai, mas vai ter um final muito melhor, dependendo das escolhas que fizer.

Viver é definir prioridades. A pessoa deve estabelecer metas e se comprometer a alcançá-las. Em Administração, as empresas precisam estabelecer a sua missão, que é uma “antevisão”, um “vislumbre” do futuro, ou o objetivo de existência que define onde está e aonde quer chegar. Todo indivíduo pode seguir o mesmo caminho: ao traçar metas factíveis, a pessoa demarca “o momento atual e o futuro”, e se compromete a chegar lá.

Nesse mundo, os comprometidos vencem. O comprometimento ajuda a criar o aperfeiçoamento. E como ensinou Confúcio, “o aperfeiçoamento de si mesmo é a base fundamental de todo progresso”.

domingo, 25 de setembro de 2011

Em 2006 escrevi um texto intitulado SALVEM A IGREJA DO ROSÁRIO. Era um grito contra a construção de um posto de gasolina em frente ao imóvel sagrado de nossa história e que, por conseguinte, macularia a visão do velho prédio sagrado. Mas não só isso. A construção do posto naquele local era proibida, como ficou evidente depois. Mas num primeiro momento, era proibida porque assim a Lei municipal o determinava. O texto era, concomitantemente, um grito contra o legislar em causa própria e contra a total falta de interesse que os políticos locais à época tiveram em proteger um patrimônio tombado que é também um símbolo da religiosidade do nosso povo. Pois bem, naquela ocasião a lei foi modificada, a modificação foi sancionada pela autoridade máxima, e a construção do posto foi iniciada. Ainda estão lá as estruturas metálicas. Graças a Deus ou à Virgem Maria, eu suponho, as autoridades judiciárias resolveram interferir e, por força de lei maior, a construção foi vetada. E hoje, 25/09/2011, a igreja é reinaugurada, depois de reforma pelo IPHAN, que deixou o prédio novinho e próprio pra ser admirado. Eu gosto da Igreja do Rosário muito mais pelo seu aspecto histórico que por sua simbologia religiosa e, na minha humilde concepção, falta ainda uma ação pra deixar aquele monumento lindo: retirar aquelas estruturas metálicas dali; estruturas que com sua serventia a faixas e outdoors maculam hoje muito mais a face daquela nova igreja. Que isso seja feito graças a Deus ou à Virgem Maria, mas que seja feito logo...

(leia o texto abaixo)...


SALVEM A IGREJA DO ROSÁRIO


O texto da Lei Municipal 2991, sancionado em 03 de outubro de 2006, poderá passar por modificações na Câmara de Vereadores este ano. Não, não pensem que o intuito é ampliar a abordagem legal, é o contrário: visa a desabilitar o diploma legal e confortá-lo a necessidades particulares.
De acordo com a lei, que dispõe sobre o parcelamento e uso do solo, a área do Setor Rosário é Zona de Interesse de Preservação Histórico e Cultural (ZIPHC). O art. 22 dessa lei reza que são “vedados os usos econômicos que impliquem em vetores de poluição ambiental”, e o art. 21 emenda que poderão ser permitidas “excepcionalmente edificações acima do gabarito estabelecido, com prévia anuência dos Conselhos Municipais de Desenvolvimento Urbano e Política e Urbana e Meio Ambiente e Cultural” (CODEMA).
A presidência da Câmara Municipal, no uso de suas atribuições, propôs e sancionou o Autógrafo de Lei n° 3077, em 11 de setembro de 2007. O autógrafo versa sobre o mesmo tema do art. 20 da Lei de Parcelamento e Uso do Solo, com a ressalva de que “Os usos econômicos denominados de uso especial passarão a ser admitidos na referida área” (§ 4°). Ocorre que o Autógrafo vem investido de uma sutileza tal, que interfere nas bases legais modificando-as ao bel-prazer particular sem nem parecer que o faz. O autógrafo dinamita o Parágrafo Único do art. 36, que em seu caput esclarece que “A anulação dos atos de tombamentos ou preservação de bens só poderá ocorrer por necessário, relevante e comprovado interesse social” (grifei).
Todo esse dilema se reduz à vontade particular e interesse privado e diz não ao “necessário, relevante e comprovado interesse social”. Ao desejar construir um posto para armazenamento e venda de combustíveis, o interessado esbarrou nas “inconveniências” legais e tenta, agora, reformular o referido diploma.
Fala-se de “um indivíduo” porque a mudança na lei é para beneficiar, pelo menos inicialmente, uma só pessoa, em detrimento da coletividade. O interessado em questão é o vereador Beto Roriz. Trata-se do famoso “legislar em causa própria”, com as bênçãos das demais autoridades. Ou seja, mais uma vez o interesse da coletividade é pisoteado pelo interesse particular.
Nós, que ainda nos surpreendemos com os desmandos dos governantes, rogamos a quem de direito: salvem a Igreja do Rosário, ou mandem retirar a placa da entrada da cidade, que convoca o “turista” a visitar o centro histórico.